Tuesday, May 25, 2004
It's a bore
A única pergunta metafísica que todo homem de bom gosto deveria se fazer é: Oh, tormentos, por que eu não sou o Honoré de Lachaille?
Outra boa pergunta: Por que todas as festas não são no Maxim's?
Outra boa pergunta: Por que todas as festas não são no Maxim's?
Wednesday, May 05, 2004
Porque sou a favor da violência e do sexo na TV
A Rede Globo é uma empresa nascida no berço da classe-média-alta carioca. É uma TV de Ipanema, do Leblon, com atores de teatro fazendo novela, romancistas e cronistas fazendo roteiros, diretores de cinema comandando núcleos de dramaturgia.
Já o SBT é a TV paulistana, do povão. Fundada por um camelô judeu, faz programas para a patuléia, entretém a esculhama, quer agradar ao lúmpem proletariado. Ratinho, Hebe, Gugu, as péssimas novelas mexicanas e os jornais sensacionalistas, que fazem matérias de 5 minutos sobre homicídios na periferia, ou sobre o nascimento de um urso panda no zoológico de Jacarta, estabelecem o patamar intelectual dos programas, que é baixo.
Nos anos 80 o SBT era um lixo. A qualidade técnica e a falta de dinheiro das produções era de doer. Pedro de Lara, Sônia Lima e Sérgio Malandro cambaleavam até a mesa dos jurados de um show de calouros, cujo cenário parecia ser feito de papelão e isopor coberto de cola pritt e lantejoulas. Os filmes eram dos anos 70 e a coisa toda exalava uma vulgaridade ímpar. As nossas faxineiras assistiam ao Domingo da Alegria. Nós, digníssimos membros da classe dominante e opressora, assistíamos ao Jornal Nacional e à novela das 8. O Brasil tinha então duas classes sociais: os globais e os essebetistas. Eu era (e ainda sou) global. A Cícera, minha mucama e ama de leite, era essebetista e, para minha diversão e regozijo, além de tudo gostava de ouvir o Eli Correia no rádio (oiiiiiiiiii, gente!!).
De lá pra cá
Por que o SBT não tinha dinheiro? Vamos lá, Sherlock. Pense. A inflação comia 40% do poder de compra da esculhama, que mal tinha dinheiro para a condução. O salário só dava porque as faxineiras faziam as refeições nas casas dos patrões, em um regime de claras reminiscências escravocratas. O SBT sempre foi feito para essa gente e não fazia sentido alguém comprar espaço publicitário e anunciar produtos para uma horda de miseráveis esfarrapados. O SBT minguava ao lado do povo.
A história toda mudou quando a inflação foi controlada em 94, e a classe baixa ganhou poder de compra. Comparados com uma classe média que via seu crédito achatado por juros de cartão e cheque especial, eles viraram filé. Os anunciantes rapidamente perceberam que seus novos consumidores eram agora os essebetistas e passaram a comprar espaço na banquinha do camelô judeu. Em pouco tempo, o SBT cresceu, novos programas surgiram, com mais dinheiro, mais recursos técnicos, mais pontos de audiência, porém sempre voltados para o gosto do povão: muita bunda, muita violência, muito pagode.
A Globo teve de se adequar ao gosto dos essebetistas para morder um pedacinho da nova torta. O Linha Direta, o Zorra Total e os peladões das novelas das 6 são a nova marca. O Boni, que não gostava da idéia, rodou.
Minha opinião
Minha opinião? A violência e o sexo na TV são o maior legado do Governo FHC. Antes eu reclamava do baixo nível da programação. Isso até ver a nossa Perfeita Biscate, de tailleur Gucci e do alto de seus saltos Prada, defendendo a idéia de uma comissão de burocratas em Brasília para controlar o conteúdo das redes. Aí tudo ficou claro pra mim. Os programas com violência e sexo são uma conquista do povo brasileiro. Talvez a maior conquista desde o fim da escravidão, desde a volta do voto direto. E a Marta, como todo petista assistencialista, que acha o povo estúpido e incapaz até mesmo de escolher um programa de televisão, quer privar os coitados dessa diversão democrática.
A baixaria é a vitória dos excluídos e assim concluo: quanto mais violência e sexo na TV, melhor.
Já o SBT é a TV paulistana, do povão. Fundada por um camelô judeu, faz programas para a patuléia, entretém a esculhama, quer agradar ao lúmpem proletariado. Ratinho, Hebe, Gugu, as péssimas novelas mexicanas e os jornais sensacionalistas, que fazem matérias de 5 minutos sobre homicídios na periferia, ou sobre o nascimento de um urso panda no zoológico de Jacarta, estabelecem o patamar intelectual dos programas, que é baixo.
Nos anos 80 o SBT era um lixo. A qualidade técnica e a falta de dinheiro das produções era de doer. Pedro de Lara, Sônia Lima e Sérgio Malandro cambaleavam até a mesa dos jurados de um show de calouros, cujo cenário parecia ser feito de papelão e isopor coberto de cola pritt e lantejoulas. Os filmes eram dos anos 70 e a coisa toda exalava uma vulgaridade ímpar. As nossas faxineiras assistiam ao Domingo da Alegria. Nós, digníssimos membros da classe dominante e opressora, assistíamos ao Jornal Nacional e à novela das 8. O Brasil tinha então duas classes sociais: os globais e os essebetistas. Eu era (e ainda sou) global. A Cícera, minha mucama e ama de leite, era essebetista e, para minha diversão e regozijo, além de tudo gostava de ouvir o Eli Correia no rádio (oiiiiiiiiii, gente!!).
De lá pra cá
Por que o SBT não tinha dinheiro? Vamos lá, Sherlock. Pense. A inflação comia 40% do poder de compra da esculhama, que mal tinha dinheiro para a condução. O salário só dava porque as faxineiras faziam as refeições nas casas dos patrões, em um regime de claras reminiscências escravocratas. O SBT sempre foi feito para essa gente e não fazia sentido alguém comprar espaço publicitário e anunciar produtos para uma horda de miseráveis esfarrapados. O SBT minguava ao lado do povo.
A história toda mudou quando a inflação foi controlada em 94, e a classe baixa ganhou poder de compra. Comparados com uma classe média que via seu crédito achatado por juros de cartão e cheque especial, eles viraram filé. Os anunciantes rapidamente perceberam que seus novos consumidores eram agora os essebetistas e passaram a comprar espaço na banquinha do camelô judeu. Em pouco tempo, o SBT cresceu, novos programas surgiram, com mais dinheiro, mais recursos técnicos, mais pontos de audiência, porém sempre voltados para o gosto do povão: muita bunda, muita violência, muito pagode.
A Globo teve de se adequar ao gosto dos essebetistas para morder um pedacinho da nova torta. O Linha Direta, o Zorra Total e os peladões das novelas das 6 são a nova marca. O Boni, que não gostava da idéia, rodou.
Minha opinião
Minha opinião? A violência e o sexo na TV são o maior legado do Governo FHC. Antes eu reclamava do baixo nível da programação. Isso até ver a nossa Perfeita Biscate, de tailleur Gucci e do alto de seus saltos Prada, defendendo a idéia de uma comissão de burocratas em Brasília para controlar o conteúdo das redes. Aí tudo ficou claro pra mim. Os programas com violência e sexo são uma conquista do povo brasileiro. Talvez a maior conquista desde o fim da escravidão, desde a volta do voto direto. E a Marta, como todo petista assistencialista, que acha o povo estúpido e incapaz até mesmo de escolher um programa de televisão, quer privar os coitados dessa diversão democrática.
A baixaria é a vitória dos excluídos e assim concluo: quanto mais violência e sexo na TV, melhor.
Thursday, April 22, 2004
Museu de pessoas
Na faculdade de ciências sociais (curso de antropologia) defendia que o trabalho da Funai e dos antropólogos fosse o de civilizar os índios o mais rapidamente possível. Dar escola, roupas, ensinar uma profissão, português, matemática. Poderiam também recolher os artefatos, tabas, arcos, flechas, cerâmicas, redes e abrir um museu.
Um museu de coisas, não de pessoas.
***
Riam de mim alunos e professores, mas riam com raiva. Eu também ria deles e os debates eram divertidíssimos porque, não sei se vocês sabem, os cientistas sociais estão entre as figuras mais ignorantes da galáxia. Eram dez, doze contra um e eu invariavelmente ganhava. Eu dizia ser uma piada de mau gosto criar reservas culturais, onde grupos antes isolados poderiam viver como se ainda não tivessem entrado em contato com o homem branco. A aculturação é um processo que não fica sob nosso pretensioso controle. Uma vez descobertos, os índios vão querer usar tênis e bonés, dirigir caminhonetes e assistir televisão. Mantê-los em reservas sob a pecha de incapazes é prolongar um estágio de aculturação muito sofrido, em que se perde uma identidade sem ganhar outra em troca. O ideal seria apressar a passagem de um estágio para o outro e diminuir o sofrimento a um mínimo. Garantir a inserção social, como diriam lá no PT. Estranhamente, o que a Funai faz é o contrário. Ela prolonga indefinidamente esse período intermediário, condenando os índios a uma espécie de limbo cultural onde, em dado momento, nem eles sabem mais o que querem.
Na época aprendi que eram comuns os suicídios entre os pobres coitados. Para as cabeças sociológicas, a culpa era da civilização ocidental e as mortes uma espécie de prova das teorias rousseaunianas sobre a superioridade do estado de natureza. De minha parte, sempre vi nos suicídios um protesto inconsciente contra a humilhante condição de objeto vivo de estudos antropológicos.
***
Outra discussão que tínhamos era sobre a necessidade de preservar a cultura dos índios. Há aquelas especulações sobre remédios ancestrais, cura para a AIDS, ervas medicinais etc. Não sou ornitólogo nem entomologista, mas faço aqui uma aposta: se a cura para AIDS sair de alguma das tabas dos índios cinta-larga, penduro as chuteiras.
***
Concluindo. Não me espanta em nada a brutalidade e a violência que se vê nesses lugares. Como no caso da morte por mutilação e incineração de mais de 30 garimpeiros em Espigão d'Oeste. O lugar é uma verdadeira terra de ninguém. Os índios são obrigados a continuar caçando minhocas com lasca de bambu e são considerados incapazes pela Constituição Federal. Já a reserva, apesar de riquíssima em diamantes, não pode ser explorada por ninguém, da tribo ou do garimpo. Ou seja: são duas hordas de miseráveis sentadas sobre uma mina de dinheiro, em um lugar em que as regras do Código Penal não se aplicam.
Quem pensou nisso merecia um prêmio, não acham?
***
Sou a favor do fim das reservas indígenas. Ou então, se preferirem continuar preservando formas arcaicas de vida, deviam transformar a FFLCH (Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas da USP) e a Funai em reservas de inimputáveis.
Um museu de coisas, não de pessoas.
***
Riam de mim alunos e professores, mas riam com raiva. Eu também ria deles e os debates eram divertidíssimos porque, não sei se vocês sabem, os cientistas sociais estão entre as figuras mais ignorantes da galáxia. Eram dez, doze contra um e eu invariavelmente ganhava. Eu dizia ser uma piada de mau gosto criar reservas culturais, onde grupos antes isolados poderiam viver como se ainda não tivessem entrado em contato com o homem branco. A aculturação é um processo que não fica sob nosso pretensioso controle. Uma vez descobertos, os índios vão querer usar tênis e bonés, dirigir caminhonetes e assistir televisão. Mantê-los em reservas sob a pecha de incapazes é prolongar um estágio de aculturação muito sofrido, em que se perde uma identidade sem ganhar outra em troca. O ideal seria apressar a passagem de um estágio para o outro e diminuir o sofrimento a um mínimo. Garantir a inserção social, como diriam lá no PT. Estranhamente, o que a Funai faz é o contrário. Ela prolonga indefinidamente esse período intermediário, condenando os índios a uma espécie de limbo cultural onde, em dado momento, nem eles sabem mais o que querem.
Na época aprendi que eram comuns os suicídios entre os pobres coitados. Para as cabeças sociológicas, a culpa era da civilização ocidental e as mortes uma espécie de prova das teorias rousseaunianas sobre a superioridade do estado de natureza. De minha parte, sempre vi nos suicídios um protesto inconsciente contra a humilhante condição de objeto vivo de estudos antropológicos.
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Outra discussão que tínhamos era sobre a necessidade de preservar a cultura dos índios. Há aquelas especulações sobre remédios ancestrais, cura para a AIDS, ervas medicinais etc. Não sou ornitólogo nem entomologista, mas faço aqui uma aposta: se a cura para AIDS sair de alguma das tabas dos índios cinta-larga, penduro as chuteiras.
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Concluindo. Não me espanta em nada a brutalidade e a violência que se vê nesses lugares. Como no caso da morte por mutilação e incineração de mais de 30 garimpeiros em Espigão d'Oeste. O lugar é uma verdadeira terra de ninguém. Os índios são obrigados a continuar caçando minhocas com lasca de bambu e são considerados incapazes pela Constituição Federal. Já a reserva, apesar de riquíssima em diamantes, não pode ser explorada por ninguém, da tribo ou do garimpo. Ou seja: são duas hordas de miseráveis sentadas sobre uma mina de dinheiro, em um lugar em que as regras do Código Penal não se aplicam.
Quem pensou nisso merecia um prêmio, não acham?
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Sou a favor do fim das reservas indígenas. Ou então, se preferirem continuar preservando formas arcaicas de vida, deviam transformar a FFLCH (Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas da USP) e a Funai em reservas de inimputáveis.
Thursday, April 15, 2004
De volta
Desculpem o sumiço. Fui obrigado a voltar a advogar nestas duas últimas semanas. Oh, céus, o tormento, o horror. Lutei com fúria e a boa notícia é que ganhei e meu cliente aparentemente não tinha razão. Ganhar com razão é fácil. Difícil é inocentar os culpados, soltar criminosos, não pagar dívidas (risos macabros).
Eu poderia até dizer que o ápice dessa minha profissão é a injustiça, se eu acreditasse na existência de uma Justiça a ser violada. Como não acredito, pelo menos até agora, insisto que somos apenas despachantes letrados e bem pagos.
***
Li trechos do Código de Hamurabi esses dias. Olho por olho, dente por dente. Numa passagem descobri que a pena por matar o filho de alguém era ter o próprio filho morto. O que o coitado do filho tem a ver com as loucuras do pai é uma boa pergunta, mas a pena cria possibilidades interessantes. Por exemplo. Se você deseja a morte do seu primogênito, basta encontrar alguém que também queira matar o próprio filho. Você mata o dele e confessa o crime. Move-se a ação e, condenado, alguém vem e mata o seu. Dois homicídios na mais estrita legalidade.
É pra bolar esse tipo de coisa que existem advogados (mais risos macabros).
***
No passado, cortar a mão de um ladrão, castrar um estuprador ou reduzir à miséria um corrupto criava uma sensação de Justiça. O valor por trás era o da reciprocidade. Deve-se sofrer o mesmo mal que se causou. Hoje não. A sociedade moderna busca eficiência e não retribuição. Se o ladrão tem jeito, deve ser recuperado. Se o estuprador pode virar balconista de padaria, motorista de táxi, vendedor ambulante, tanto melhor. Criar inválidos por amputação ou banir adultos saudáveis não soa bem. Quem tem condições de trabalhar deve ser integrado e contribuir para o bem comum, para a eficiência geral.
Comparo passado e presente. Hoje o sistema penal (pelo menos em sua ideologia) não busca reciprocidade, e acho que concordo com isso. Não sei em que a sensação de retribuição ajuda a vítima. Nunca vi na vingança uma sensação agradável. Sou meio cristão nisso, e acho que o perdão é antes de tudo um ato de superioridade. A vingança é rasteira, rebaixa a vítima ao patamar do ofensor e envergonha. Pelo menos foram essas as sensações que tive todas as vezes (e não foram poucas) que me vinguei. Além disso, há um problema de fundo, que impede de levar a idéia às últimas conseqüências. Peguem o exemplo do Hamurabi. Se alguém matasse um parente querido, não sei até onde presenciar a sua execução por eletrocussão me ajudaria. E se fosse estupro? Assistir um bandido ser sodomisado não é o que eu chamaria de satisfação de ânsia de Justiça. A resposta básica a esse tipo de objeção é a de que a reciprocidade para crimes bárbaros deve ser uma morte asséptica promovida pelo Poder Público. Com a pena de morte, dizem, teríamos um duplo benefício: sacaneamos o bandido (vantagem pessoal) e ainda tiramos o infeliz de circulação (vantagem social).
O raciocínio é sedutor, mas tenho receios. Primeiro, por que o Estado erra. E erra muito. E é corrupto até a medula. E é incompetente. Não se pode discutir uma situação específica (e se alguém espancasse a sua irmã até a morte, e se sua família fosse torturada por um monge chinês...), em que determinado indivíduo é dado como culpado de um crime hediondo sem um julgamento persecutório, que na vida como ela é envolve delegados, policiais, juízes, oficiais de justiça, investigadores, advogados, testemunhas, peritos, cartorários, assessores, gente como a gente, ou pior. Ignorar o problema central da dúvida sobre a autoria e assumir que já há um criminoso antes da sentença reduz o problema a um simples 'o que fazer com esse traste humano? Mandamos para uma instituição psiquiátrica, batemos, trancamos ou matamos?' Isso não é discussão, é conversa fiada de botequim.
Completamente diferente é defender uma autorização constitucional genérica para que o Estado - é, o Estado, aquele mesmo que cobra impostos extorsivos, gasta tudo com a previdência de seus próprios funcionários, se deixa subornar e não consegue nem prover um sistema de esgotos decente - mate pessoas. Começar uma discussão sobre pena de morte tendo por pressuposto que o criminoso já é culpado é acreditar que existe pena sem processo, que pode haver crime sem direito de defesa, sem provas, sem discussão. Ou seja: é jogar na lata do lixo 2000 anos de civilização e retroceder à idade da pedra. Na prática há uma ação penal, conduzida por pessoas que podem também ser bandidos, ou que podem ser incompetentes, ou que podem buscar auto-promoção, e digo a vocês, por experiência própria, que a maioria se encaixa numa dessas três categorias.
A cada dia me convenço que sou um espírito moderninho. Gosto da modernidade, gosto da dúvida, gosto de pessoas que admitam a possibilidade de estarem erradas. Não gosto de bobalhões caga-regras cheios de certeza, fundamentalistas de fundo de quintal, intolerantes, radicais. O grande avanço do Direito Penal foi o Estado assumir por princípio que pode estar errado. Por isso, todo processo crime pode ser reaberto em caso de surgirem novas provas, por isso a lei penal retrocede em benefício dos réus presos. A pena de morte é um resquício da sensação de onipotência e infalibilidade do Poder Público, por que para a morte não tem volta. Para aplicar uma pena dessa natureza, você tem que estar certo, absolutamente certo, de que o cara é culpado, de que o que foi feito é e sempre será crime e de que a pena correta é uma passagem de ida para o Além. Como nada é absolutamente certo e como o Estado é uma ficção de mau gosto, um gigante inepto, meio safado e abobalhado, sou contra a pena de morte.
Eu poderia até dizer que o ápice dessa minha profissão é a injustiça, se eu acreditasse na existência de uma Justiça a ser violada. Como não acredito, pelo menos até agora, insisto que somos apenas despachantes letrados e bem pagos.
***
Li trechos do Código de Hamurabi esses dias. Olho por olho, dente por dente. Numa passagem descobri que a pena por matar o filho de alguém era ter o próprio filho morto. O que o coitado do filho tem a ver com as loucuras do pai é uma boa pergunta, mas a pena cria possibilidades interessantes. Por exemplo. Se você deseja a morte do seu primogênito, basta encontrar alguém que também queira matar o próprio filho. Você mata o dele e confessa o crime. Move-se a ação e, condenado, alguém vem e mata o seu. Dois homicídios na mais estrita legalidade.
É pra bolar esse tipo de coisa que existem advogados (mais risos macabros).
***
No passado, cortar a mão de um ladrão, castrar um estuprador ou reduzir à miséria um corrupto criava uma sensação de Justiça. O valor por trás era o da reciprocidade. Deve-se sofrer o mesmo mal que se causou. Hoje não. A sociedade moderna busca eficiência e não retribuição. Se o ladrão tem jeito, deve ser recuperado. Se o estuprador pode virar balconista de padaria, motorista de táxi, vendedor ambulante, tanto melhor. Criar inválidos por amputação ou banir adultos saudáveis não soa bem. Quem tem condições de trabalhar deve ser integrado e contribuir para o bem comum, para a eficiência geral.
Comparo passado e presente. Hoje o sistema penal (pelo menos em sua ideologia) não busca reciprocidade, e acho que concordo com isso. Não sei em que a sensação de retribuição ajuda a vítima. Nunca vi na vingança uma sensação agradável. Sou meio cristão nisso, e acho que o perdão é antes de tudo um ato de superioridade. A vingança é rasteira, rebaixa a vítima ao patamar do ofensor e envergonha. Pelo menos foram essas as sensações que tive todas as vezes (e não foram poucas) que me vinguei. Além disso, há um problema de fundo, que impede de levar a idéia às últimas conseqüências. Peguem o exemplo do Hamurabi. Se alguém matasse um parente querido, não sei até onde presenciar a sua execução por eletrocussão me ajudaria. E se fosse estupro? Assistir um bandido ser sodomisado não é o que eu chamaria de satisfação de ânsia de Justiça. A resposta básica a esse tipo de objeção é a de que a reciprocidade para crimes bárbaros deve ser uma morte asséptica promovida pelo Poder Público. Com a pena de morte, dizem, teríamos um duplo benefício: sacaneamos o bandido (vantagem pessoal) e ainda tiramos o infeliz de circulação (vantagem social).
O raciocínio é sedutor, mas tenho receios. Primeiro, por que o Estado erra. E erra muito. E é corrupto até a medula. E é incompetente. Não se pode discutir uma situação específica (e se alguém espancasse a sua irmã até a morte, e se sua família fosse torturada por um monge chinês...), em que determinado indivíduo é dado como culpado de um crime hediondo sem um julgamento persecutório, que na vida como ela é envolve delegados, policiais, juízes, oficiais de justiça, investigadores, advogados, testemunhas, peritos, cartorários, assessores, gente como a gente, ou pior. Ignorar o problema central da dúvida sobre a autoria e assumir que já há um criminoso antes da sentença reduz o problema a um simples 'o que fazer com esse traste humano? Mandamos para uma instituição psiquiátrica, batemos, trancamos ou matamos?' Isso não é discussão, é conversa fiada de botequim.
Completamente diferente é defender uma autorização constitucional genérica para que o Estado - é, o Estado, aquele mesmo que cobra impostos extorsivos, gasta tudo com a previdência de seus próprios funcionários, se deixa subornar e não consegue nem prover um sistema de esgotos decente - mate pessoas. Começar uma discussão sobre pena de morte tendo por pressuposto que o criminoso já é culpado é acreditar que existe pena sem processo, que pode haver crime sem direito de defesa, sem provas, sem discussão. Ou seja: é jogar na lata do lixo 2000 anos de civilização e retroceder à idade da pedra. Na prática há uma ação penal, conduzida por pessoas que podem também ser bandidos, ou que podem ser incompetentes, ou que podem buscar auto-promoção, e digo a vocês, por experiência própria, que a maioria se encaixa numa dessas três categorias.
A cada dia me convenço que sou um espírito moderninho. Gosto da modernidade, gosto da dúvida, gosto de pessoas que admitam a possibilidade de estarem erradas. Não gosto de bobalhões caga-regras cheios de certeza, fundamentalistas de fundo de quintal, intolerantes, radicais. O grande avanço do Direito Penal foi o Estado assumir por princípio que pode estar errado. Por isso, todo processo crime pode ser reaberto em caso de surgirem novas provas, por isso a lei penal retrocede em benefício dos réus presos. A pena de morte é um resquício da sensação de onipotência e infalibilidade do Poder Público, por que para a morte não tem volta. Para aplicar uma pena dessa natureza, você tem que estar certo, absolutamente certo, de que o cara é culpado, de que o que foi feito é e sempre será crime e de que a pena correta é uma passagem de ida para o Além. Como nada é absolutamente certo e como o Estado é uma ficção de mau gosto, um gigante inepto, meio safado e abobalhado, sou contra a pena de morte.
Thursday, April 01, 2004
Só a macarronada salva o casamento
(Esse é um texto antigo, escrito nos meus tempos de solteirice. Mal sabia eu que minha futura noivinha iria preparar o melhor gnochi da terra...)
Sou um homem solteiro. Moro sozinho e não sei cozinhar. Não saber cozinhar torna um homem vulnerável. Lembro de minha vó me dizendo que era fácil conquistar alguém pelo estômago. Do alto de meus doze anos, idade em que o máximo da gastronomia reside em uma festa de aniversário boca-livre no Mc Donald´s, eu ria. Impossível fisgar um homem pelo estômago. Como um ser humano em sã consciência seria capaz de tomar uma decisão tão importante, como casar, por causa de uma macarronada à bolonhesa? Impossível. Mas na época eu não era nem solteiro, nem morava sozinho e, o que é mais ingênuo, achava que casar era uma decisão importante.
Já tive desde esse último encontro com minha vó algumas dezenas de experiências gastronômicas memoráveis. A primeira, em Milão, em um restaurante chamado Biffi Scalla, foi um prenúncio do que estaria por vir. Descobri que os melhores prazeres são resultantes da satisfação de um impulso instintivo, de uma necessidade animal. Melhor que qualquer prazer intelectual ou estético, a saciação da fome é capaz de dar a uma pessoa uma completa sensação de satisfação, momentânea e fugaz, porém completa. Um quadro ou peça pode no máximo te distrair com a beleza das formas e cores, com uma ou duas frases que, com um esforço hercúleo de memória, poderemos nos lembrar no dia seguinte. A grande arte, por melhor que seja, é completamente superficial, um consolo inútil. Já a refeição não. A refeição, na sua essencialidade animal, te pega pelas entranhas, pelas suas necessidades mais básicas e, quando é grandiosa, te traz uma incomparável felicidade, espontânea e natural. Uma boa refeição é sinônimo de alegria.
Não à toa, toda civilização tem uma culinária, com exceção dos EUA, que ninguém explica. Talvez eles só sejam mesmo ricos, e não civilizados. Já a Itália, a França, o Japão, a Grécia, a Índia e a China têm excelentes receitas para exportar ao mundo, misturando suas melhores ervas, carnes e vegetais. Sem grande cozinha não há grande nação, o que também explica o subdesenvolvimento do nosso Brasil, que até hoje só foi capaz de criar o quindim de ovo. Os inventores do foie gras, do champagne, do camembert, do ravioli, do sashimi e do azeite de oliva são incomparavelmente mais importantes para a humanidade que qualquer artista, seja Shakespeare, Rodin, Vermeer ou Bach, que qualquer filósofo e que qualquer cientista. É para eles, os chefs, que eu rezo todas as noites.
Tive também experiências desastrosas, é verdade, ânsias, dores no abdômen, queda de pressão, sem mencionar os efeitos colaterais mais humilhantes, como, por exemplo, os que um peixe estragado ou um cachorro quente de van podem causar. Mas nada que abalasse minha convicção de que a vida é, realmente, aquele espaço aborrecido entre as refeições (provérbio italiano). Na verdade, essas experiências serviram mais para confirmar, pela força do contraste, as maravilhas que uma verdadeira grande refeição pode te proporcionar.
O fato de um homem ficar solteirão e ir morar sozinho aumenta a sua vulnerabilidade às fisgadas culinárias. Vulnerabilidade é um belo eufemismo que encontrei para ocultar a verdade: nós, homens, somos venais. Vendemos nossa liberdade por um prato de lentilhas, desde que bem temperado, claro. Conheço um caso (vou omitir os nomes) de um amigo que pediu a mulher em casamento por causa de um misto quente. Podem acreditar. É o cúmulo da humilhação e eu tentei impedir a cerimônia, mas ele argumentou que o sanduíche vinha com uma fatia de tomate caqui e que, portanto, tratava-se de um Bauru Completo, com maiúsculas. Um Bauru Completo, quentinho, com queijo derretido, equivalia, segundo ele - que vivia há mais de três anos em uma república, dividindo o quarto e o miojo com o Alemão Maluco, o Fuinha e o Maurão - à ambrosia mitológica. Se eu o considerava banal, para ele aquele sanduíche, carinhosamente preparado e entregue em seu colo sobre a cama, tinha algo de maravilhoso, além do fato de ser de graça. Estava justificada a cerimônia.
Graças à providência divina e aos meus pais nunca morei em república e acho que é por isso que não me casei. No fim das contas, hoje penso exatamente o contrário do que pensava lá atrás, quando mantive com minha vó aquele memorável diálogo: apenas uma grande refeição é sublime o suficiente para convencer um homem a casar, um preço alto o bastante para pagar todas as privações que o matrimônio traz ao longo dos anos. Nós, homens, somos venais, tão venais que trocamos sem arrependimentos nossa liberdade, nossa integridade moral, e, acima de tudo, nosso sossego por uma macarronada à bolonhesa. Desde que bem temperada, claro.
Sou um homem solteiro. Moro sozinho e não sei cozinhar. Não saber cozinhar torna um homem vulnerável. Lembro de minha vó me dizendo que era fácil conquistar alguém pelo estômago. Do alto de meus doze anos, idade em que o máximo da gastronomia reside em uma festa de aniversário boca-livre no Mc Donald´s, eu ria. Impossível fisgar um homem pelo estômago. Como um ser humano em sã consciência seria capaz de tomar uma decisão tão importante, como casar, por causa de uma macarronada à bolonhesa? Impossível. Mas na época eu não era nem solteiro, nem morava sozinho e, o que é mais ingênuo, achava que casar era uma decisão importante.
Já tive desde esse último encontro com minha vó algumas dezenas de experiências gastronômicas memoráveis. A primeira, em Milão, em um restaurante chamado Biffi Scalla, foi um prenúncio do que estaria por vir. Descobri que os melhores prazeres são resultantes da satisfação de um impulso instintivo, de uma necessidade animal. Melhor que qualquer prazer intelectual ou estético, a saciação da fome é capaz de dar a uma pessoa uma completa sensação de satisfação, momentânea e fugaz, porém completa. Um quadro ou peça pode no máximo te distrair com a beleza das formas e cores, com uma ou duas frases que, com um esforço hercúleo de memória, poderemos nos lembrar no dia seguinte. A grande arte, por melhor que seja, é completamente superficial, um consolo inútil. Já a refeição não. A refeição, na sua essencialidade animal, te pega pelas entranhas, pelas suas necessidades mais básicas e, quando é grandiosa, te traz uma incomparável felicidade, espontânea e natural. Uma boa refeição é sinônimo de alegria.
Não à toa, toda civilização tem uma culinária, com exceção dos EUA, que ninguém explica. Talvez eles só sejam mesmo ricos, e não civilizados. Já a Itália, a França, o Japão, a Grécia, a Índia e a China têm excelentes receitas para exportar ao mundo, misturando suas melhores ervas, carnes e vegetais. Sem grande cozinha não há grande nação, o que também explica o subdesenvolvimento do nosso Brasil, que até hoje só foi capaz de criar o quindim de ovo. Os inventores do foie gras, do champagne, do camembert, do ravioli, do sashimi e do azeite de oliva são incomparavelmente mais importantes para a humanidade que qualquer artista, seja Shakespeare, Rodin, Vermeer ou Bach, que qualquer filósofo e que qualquer cientista. É para eles, os chefs, que eu rezo todas as noites.
Tive também experiências desastrosas, é verdade, ânsias, dores no abdômen, queda de pressão, sem mencionar os efeitos colaterais mais humilhantes, como, por exemplo, os que um peixe estragado ou um cachorro quente de van podem causar. Mas nada que abalasse minha convicção de que a vida é, realmente, aquele espaço aborrecido entre as refeições (provérbio italiano). Na verdade, essas experiências serviram mais para confirmar, pela força do contraste, as maravilhas que uma verdadeira grande refeição pode te proporcionar.
O fato de um homem ficar solteirão e ir morar sozinho aumenta a sua vulnerabilidade às fisgadas culinárias. Vulnerabilidade é um belo eufemismo que encontrei para ocultar a verdade: nós, homens, somos venais. Vendemos nossa liberdade por um prato de lentilhas, desde que bem temperado, claro. Conheço um caso (vou omitir os nomes) de um amigo que pediu a mulher em casamento por causa de um misto quente. Podem acreditar. É o cúmulo da humilhação e eu tentei impedir a cerimônia, mas ele argumentou que o sanduíche vinha com uma fatia de tomate caqui e que, portanto, tratava-se de um Bauru Completo, com maiúsculas. Um Bauru Completo, quentinho, com queijo derretido, equivalia, segundo ele - que vivia há mais de três anos em uma república, dividindo o quarto e o miojo com o Alemão Maluco, o Fuinha e o Maurão - à ambrosia mitológica. Se eu o considerava banal, para ele aquele sanduíche, carinhosamente preparado e entregue em seu colo sobre a cama, tinha algo de maravilhoso, além do fato de ser de graça. Estava justificada a cerimônia.
Graças à providência divina e aos meus pais nunca morei em república e acho que é por isso que não me casei. No fim das contas, hoje penso exatamente o contrário do que pensava lá atrás, quando mantive com minha vó aquele memorável diálogo: apenas uma grande refeição é sublime o suficiente para convencer um homem a casar, um preço alto o bastante para pagar todas as privações que o matrimônio traz ao longo dos anos. Nós, homens, somos venais, tão venais que trocamos sem arrependimentos nossa liberdade, nossa integridade moral, e, acima de tudo, nosso sossego por uma macarronada à bolonhesa. Desde que bem temperada, claro.
Thursday, March 25, 2004
Churrasquinho grego, Copacabana Palace e Deus
Vou contar um segredinho para vocês. Fim-de-semana passado estive no Rio, incógnito com minha noiva. Na sexta-feira jantamos no Cipriani, restaurante do Copacabana Palace. De entrada, dividimos um creme de lentilhas com ovas. De secondo escolhi codorna com ameixas. Ela, lasanha de lula. O Cipriani é o restaurante mais belo do Brasil, um dos mais charmosos do mundo. No seu salão retangular, as mesas se estendem ao longo de uma ampla janela de vidro, com vista para a piscina e os chafarizes. O maître, delicadíssimo, educadíssimo. Não fosse o Ricardinho Mansur tagarelando na mesa ao lado (e, além de tudo, desacompanhado da bela Luana), o jantar teria saído perfeito.
Jorginho Guinle foi velado no Copa. Também quero. Ou melhor. Como bom paulistano, quero ser velado no Fasano. Deitado no sarcófago, tentarei escutar pela última vez as conversas de meus grandes amigos, o tilintar das taças e talheres, as risadas, os violinos ao fundo. Ficarei quietinho ouvindo as fofocas (não se preocupem, levarei os segredos para o túmulo, literalmente) e tentarei aspirar o aroma das trufas e dos perfumes femininos.
No meu velório, por gentileza sorriam, inclusive você, minha noivinha linda. E façam um delicioso brinde, todos com as taças cheias de vinho tinto, em meu nome. E, por favor, não rezem. Nunca fui de nepotismos e não pretendo que minha alma chegue no céu por recomendações de terceiros. Não sou um modelo de santidade, mas também nunca meti os pés pelas mãos. Se Deus existir, faço questão de acertar contas pessoalmente com ele, digo, Ele. O que eu diria? Bem. Primeiro, que eu realmente, no fundo no fundo, não acreditava. Afinal, que Deus é esse capaz de criar coisas tão repulsivas quanto a peste negra, os terremotos e o churrasquinho grego? E essa história do pecado original? Por que logo uma maçã, redondinha, vermelhinha? Se Sua Magnanimitude tivesse escolhido uma jaca, as coisas talvez tivessem saído diferentes.
Claro que Deus puxaria uma lista de todos os pecados que cometi, desdaquela vez em que olhei a empregada trocar de roupa pelo buraco da fechadura (conterei a risadinha quando Ele tocar no assunto), até a véspera da minha morte, quando toquei a buzina do carro no estacionamento do Pão de Açúcar, só pra ver a velhinha derrubar o pacote de compras.
***
Agora imaginem se Deus me saísse com essa:
- (Risos) Fui Eu!
- Como?
- (Risos) É! Fui Eu quem fez a velhinha passar ali bem na hora! Sabia que você ia aprontar! (Risos). E o buraco da fechadura? Você realmente acreditou que a moça ia tirar o sutiã bem ali na frente, por puro acaso? (Risos) Esses detalhes têm o Meu toque pessoal. Um temperinho, entende? Dei todas as dicas para você acreditar em Mim. Você é que não queria!
- Sua Magnanimitude só pode estar brincando.
- Brincando? (Risos) O tempo todo! (Risos e mais risos, já meio ensandecido)
- Mas e essas calamidades, essas tragédias? Muita gente morre à toa.
- (As risadas diminuem rapidamente) Olha. A peste negra fiz num dia em que acordei de mau humor. Acho que Me excedi um pouco, é verdade. Mas churrasquinho grego é uma delícia! Você já experimentou um que tem lá na Praça da República?
Aí tudo ficaria claro pra mim. Um Criador piadista que gosta de churrasco grego. Nesse eu consigo acreditar.
Jorginho Guinle foi velado no Copa. Também quero. Ou melhor. Como bom paulistano, quero ser velado no Fasano. Deitado no sarcófago, tentarei escutar pela última vez as conversas de meus grandes amigos, o tilintar das taças e talheres, as risadas, os violinos ao fundo. Ficarei quietinho ouvindo as fofocas (não se preocupem, levarei os segredos para o túmulo, literalmente) e tentarei aspirar o aroma das trufas e dos perfumes femininos.
No meu velório, por gentileza sorriam, inclusive você, minha noivinha linda. E façam um delicioso brinde, todos com as taças cheias de vinho tinto, em meu nome. E, por favor, não rezem. Nunca fui de nepotismos e não pretendo que minha alma chegue no céu por recomendações de terceiros. Não sou um modelo de santidade, mas também nunca meti os pés pelas mãos. Se Deus existir, faço questão de acertar contas pessoalmente com ele, digo, Ele. O que eu diria? Bem. Primeiro, que eu realmente, no fundo no fundo, não acreditava. Afinal, que Deus é esse capaz de criar coisas tão repulsivas quanto a peste negra, os terremotos e o churrasquinho grego? E essa história do pecado original? Por que logo uma maçã, redondinha, vermelhinha? Se Sua Magnanimitude tivesse escolhido uma jaca, as coisas talvez tivessem saído diferentes.
Claro que Deus puxaria uma lista de todos os pecados que cometi, desdaquela vez em que olhei a empregada trocar de roupa pelo buraco da fechadura (conterei a risadinha quando Ele tocar no assunto), até a véspera da minha morte, quando toquei a buzina do carro no estacionamento do Pão de Açúcar, só pra ver a velhinha derrubar o pacote de compras.
***
Agora imaginem se Deus me saísse com essa:
- (Risos) Fui Eu!
- Como?
- (Risos) É! Fui Eu quem fez a velhinha passar ali bem na hora! Sabia que você ia aprontar! (Risos). E o buraco da fechadura? Você realmente acreditou que a moça ia tirar o sutiã bem ali na frente, por puro acaso? (Risos) Esses detalhes têm o Meu toque pessoal. Um temperinho, entende? Dei todas as dicas para você acreditar em Mim. Você é que não queria!
- Sua Magnanimitude só pode estar brincando.
- Brincando? (Risos) O tempo todo! (Risos e mais risos, já meio ensandecido)
- Mas e essas calamidades, essas tragédias? Muita gente morre à toa.
- (As risadas diminuem rapidamente) Olha. A peste negra fiz num dia em que acordei de mau humor. Acho que Me excedi um pouco, é verdade. Mas churrasquinho grego é uma delícia! Você já experimentou um que tem lá na Praça da República?
Aí tudo ficaria claro pra mim. Um Criador piadista que gosta de churrasco grego. Nesse eu consigo acreditar.
Monday, March 22, 2004
Uma proposta de emprego
Porfirio está de pé na sala de estar. Sua noiva e seu pai estão sentados em um sofá de couro capitonê. A noiva segura nas mãos uma almofada de veludo vermelho como se fosse um bebê de colo.
- Quando você vai arrumar um emprego decente? Já conversei com sócios de diversas bancas da cidade. Todos mostraram-se interessados em contratá-lo.
- Pra que o trabalho, pai? O trabalho denigre. Distorce a moral, deforma o caráter. Transforma a todos em contadores. Além do que, já tenho o dinheiro de que preciso e já conquistei a mais bela mulher. (Acena para noiva e dá um sorrisinho) Não é pra conquistar mulheres que as pessoas vão atrás de dinheiro? E não é pra ganhar dinheiro que as pessoas trabalham? Pois então. Não faz sentido algum pegar uma estrada para se chegar em um lugar em que você já se encontra.
- Detesto esse seu jeito de falar. Diz as maiores bobagens com ares de verdade absoluta. Mas a verdade é sempre a verdade, não importa como seja dita. E a mentira sempre será mentira, mesmo revestida das palavras mais belas.
- Excelente, pai! Essa mentira foi dita com tão belas palavras que quase me convenceu de sua verdade. Meus parabéns. Mas veja. Eu acredito apenas na verdade da beleza. E como a beleza é inconstante e subjetiva, a verdade também é. A verdade reluzente de hoje empalidece no dia seguinte. E uma mentirinha opaca às vezes resplandece em uma verdade incontestável. E o melhor é que a verdade é também democrática. Como a bunda, todo mundo tem a sua. Eu tenho uma, você tem outra, cada qual feliz e satisfeito. Se a verdade fosse uma só, o mundo seria um lugar mais triste. Alguns poucos andariam garbosos de suas certezas, seguidos por multidões de indecisos, pedintes de uma esmola de convicção.
- Não é possível que você acredite nisso!
- Claro que acredito. Pelo menos até esta manhã. Só não digo que se trata de uma verdade absoluta por que estaria me contradizendo. Por isso, acho que amanhã vou mudar de idéia apenas para continuar tendo razão (risos). É verdade que não existem verdades? Talvez sim, talvez não. Mas o fato é que sempre há os que querem ser donos da sabedoria, legítimos proprietários da virtude. Eu não. Faço o contrário. Digo a cada um o que querem ouvir, que têm razão, que estão certos. E assim distribuo a verdade em porções iguais e sem cobrar nada, contribuindo para a justiça social deste país.
- (Com ar de indignação) Despeitado!
- Tem razão, pai.
- (Olha feio para Porfirio e começa a remexer nos bolsos) Andei conversando com dois ou três deputados.
- (Com os olhos arregalados) Do Parlamento?!
- (Tira um cachimbo de um dos bolsos e começa a colocar fumo de pêssego) Sim, do Parlamento. Se esse seu talento para o falatório vazio tem alguma utilidade, deve ser ali.
- (Visivelmente desesperado; a barbatana da camisa espetada para fora da gola) Eu não suportaria, pai! Seria a morte! Você não está falando sério! (Olhando para a noiva) Viu! Não falei que ele era cruel! (Volta-se para o pai) Tantos anos de estudos para acabar no Parlamento! Você sabe que mandar um filho para o Parlamento é o mesmo que admitir o fracasso de sua educação. Você não está preparado para admitir que fracassou comigo, está?
- (Acende o cachimbo e dá umas baforadas) Acho que sim. Você começa a acreditar que fracassou com um filho quando ele abandona a moral, os bons costumes, se recusa a trabalhar, gasta perdulariamente o dinheiro arrecado pelo trabalho árduo de três gerações e só fala de frugalidades.
- A filosofia não é uma frugalidade, pai. (Vira-se para a noiva e fala em tom de confidência) Mas o resto é verdade.
- Realmente a filosofia não é uma das frugalidade. É só a mãe de todas elas. Mas como disse, andei falando com dois ou três parlamentares sobre você. Convenci-os de que seria um excelente assessor. Sua função será escrever discursos, participar de reuniões e comícios, orientar debates. Seu dom para o palavreado inútil será de grande utilidade.
- Ah não, pai. Tenha piedade desta pobre alma soberba. O Parlamento é um lugar inóspito para espíritos como o meu. Não me importo com mentiras até por que não acredito em verdades, mas o mau gosto é intolerável. Nobres colegas, ao menos mintam com classe é o que eu diria em meus discursos. E, por favor, chega de falar em soberania ou igualdade social. Ninguém agüenta mais. Pelo menos eu não agüento mais. Além disso, parlamentares são propositadamente confusos. Dizem que disseram o que não foi dito. E desdizem o que disseram e não poderiam ter dito. Desdizer o que foi dito e dizer o que não foi dito é o trabalho do parlamentar. Num lugar assim você nem sabe como discordar de alguém. Não, não. Eu não toleraria trabalhar em um lugar em que não se consegue nem mesmo discordar dos outros com alguma propriedade.
- (Risos) Apesar de tudo, ainda te acho engraçado, filho. Mais uma razão para acreditar na sua carreira como parlamentar. Você vai ver que lá todos são muito engraçados. Às vezes, as diferenças entre parlamentares e comediantes são tão sutis, que não sei se estou assistindo ao Comedy Channel ou à TV Senado. Sempre me confundo...
- É fácil, pai. No Comedy Channel as gravatas são menos coloridas.
- (Risos)
- Quando você vai arrumar um emprego decente? Já conversei com sócios de diversas bancas da cidade. Todos mostraram-se interessados em contratá-lo.
- Pra que o trabalho, pai? O trabalho denigre. Distorce a moral, deforma o caráter. Transforma a todos em contadores. Além do que, já tenho o dinheiro de que preciso e já conquistei a mais bela mulher. (Acena para noiva e dá um sorrisinho) Não é pra conquistar mulheres que as pessoas vão atrás de dinheiro? E não é pra ganhar dinheiro que as pessoas trabalham? Pois então. Não faz sentido algum pegar uma estrada para se chegar em um lugar em que você já se encontra.
- Detesto esse seu jeito de falar. Diz as maiores bobagens com ares de verdade absoluta. Mas a verdade é sempre a verdade, não importa como seja dita. E a mentira sempre será mentira, mesmo revestida das palavras mais belas.
- Excelente, pai! Essa mentira foi dita com tão belas palavras que quase me convenceu de sua verdade. Meus parabéns. Mas veja. Eu acredito apenas na verdade da beleza. E como a beleza é inconstante e subjetiva, a verdade também é. A verdade reluzente de hoje empalidece no dia seguinte. E uma mentirinha opaca às vezes resplandece em uma verdade incontestável. E o melhor é que a verdade é também democrática. Como a bunda, todo mundo tem a sua. Eu tenho uma, você tem outra, cada qual feliz e satisfeito. Se a verdade fosse uma só, o mundo seria um lugar mais triste. Alguns poucos andariam garbosos de suas certezas, seguidos por multidões de indecisos, pedintes de uma esmola de convicção.
- Não é possível que você acredite nisso!
- Claro que acredito. Pelo menos até esta manhã. Só não digo que se trata de uma verdade absoluta por que estaria me contradizendo. Por isso, acho que amanhã vou mudar de idéia apenas para continuar tendo razão (risos). É verdade que não existem verdades? Talvez sim, talvez não. Mas o fato é que sempre há os que querem ser donos da sabedoria, legítimos proprietários da virtude. Eu não. Faço o contrário. Digo a cada um o que querem ouvir, que têm razão, que estão certos. E assim distribuo a verdade em porções iguais e sem cobrar nada, contribuindo para a justiça social deste país.
- (Com ar de indignação) Despeitado!
- Tem razão, pai.
- (Olha feio para Porfirio e começa a remexer nos bolsos) Andei conversando com dois ou três deputados.
- (Com os olhos arregalados) Do Parlamento?!
- (Tira um cachimbo de um dos bolsos e começa a colocar fumo de pêssego) Sim, do Parlamento. Se esse seu talento para o falatório vazio tem alguma utilidade, deve ser ali.
- (Visivelmente desesperado; a barbatana da camisa espetada para fora da gola) Eu não suportaria, pai! Seria a morte! Você não está falando sério! (Olhando para a noiva) Viu! Não falei que ele era cruel! (Volta-se para o pai) Tantos anos de estudos para acabar no Parlamento! Você sabe que mandar um filho para o Parlamento é o mesmo que admitir o fracasso de sua educação. Você não está preparado para admitir que fracassou comigo, está?
- (Acende o cachimbo e dá umas baforadas) Acho que sim. Você começa a acreditar que fracassou com um filho quando ele abandona a moral, os bons costumes, se recusa a trabalhar, gasta perdulariamente o dinheiro arrecado pelo trabalho árduo de três gerações e só fala de frugalidades.
- A filosofia não é uma frugalidade, pai. (Vira-se para a noiva e fala em tom de confidência) Mas o resto é verdade.
- Realmente a filosofia não é uma das frugalidade. É só a mãe de todas elas. Mas como disse, andei falando com dois ou três parlamentares sobre você. Convenci-os de que seria um excelente assessor. Sua função será escrever discursos, participar de reuniões e comícios, orientar debates. Seu dom para o palavreado inútil será de grande utilidade.
- Ah não, pai. Tenha piedade desta pobre alma soberba. O Parlamento é um lugar inóspito para espíritos como o meu. Não me importo com mentiras até por que não acredito em verdades, mas o mau gosto é intolerável. Nobres colegas, ao menos mintam com classe é o que eu diria em meus discursos. E, por favor, chega de falar em soberania ou igualdade social. Ninguém agüenta mais. Pelo menos eu não agüento mais. Além disso, parlamentares são propositadamente confusos. Dizem que disseram o que não foi dito. E desdizem o que disseram e não poderiam ter dito. Desdizer o que foi dito e dizer o que não foi dito é o trabalho do parlamentar. Num lugar assim você nem sabe como discordar de alguém. Não, não. Eu não toleraria trabalhar em um lugar em que não se consegue nem mesmo discordar dos outros com alguma propriedade.
- (Risos) Apesar de tudo, ainda te acho engraçado, filho. Mais uma razão para acreditar na sua carreira como parlamentar. Você vai ver que lá todos são muito engraçados. Às vezes, as diferenças entre parlamentares e comediantes são tão sutis, que não sei se estou assistindo ao Comedy Channel ou à TV Senado. Sempre me confundo...
- É fácil, pai. No Comedy Channel as gravatas são menos coloridas.
- (Risos)
Tuesday, March 16, 2004
Sou um burro feliz
Intelectuais adoram falar mal de quem corre atrás de dinheiro, de quem é fútil, de quem não lê. Numa mesa de boteco, um crítico literário, um literato criticável, um jornalista e um fotógrafo. Todos tiram um falso sarro da pobre alma que passa em seu Porsche, acompanhada de uma belíssima morena.
- (Intelectual 1 dá um trago no cigarro) O pobre coitado não aproveita a vida.
- (Intelectual 2 com a latinha de cerveja na mão) Nunca leu um livro!
- (Intelectual 3 comendo um ovo roxo) Nunca foi ao teatro!
- (Intelectuais 1, 2, 3 e 4, em coro) É um burro! É um burro!!
No Brasil, intelectual não pode gostar de dinheiro. Mas vejam isso. Tenho a possibilidade de freqüentar os dois lados e garanto que nunca ouvi uma roda de yuppies parar para falar mal de intelectuais. Playboys não tomam conhecimento da intelectualidade. Entre uma e outra taça de vinho australiano, conversam sobre charutos, viagens, mulheres e futebol. Nem todos são estúpidos, garanto, e a maioria aparenta estar muito mais satisfeita com sua condição do que os intelectuais com a sua própria. Quando descobrem que um amigo entrou para um grupo de teatro, pedem notícias e se perguntam em silêncio como alguém pode viver sem a costeleta de vitela à milanesa do Fasano. Há um ar de condolências, mas não de raiva ou ressentimento. Já os intelectuais não. Estes vêm nos playboys uma ameaça à Paz Mundial e à Democracia. Eles têm raiva de playboys, falam mal, xingam, ridicularizam. Demonstram asco por dinheiro, nojo das futilidades e ficam fazendo planos sobre como transformar essas pessoas em algo que preste, como por exemplo um político ativo no parlamento, um bom escritor, um cientista, um padre.
Minha opinião? Pura inveja.
***
Mas o que seria uma pessoa que presta? É dessas que só falam de assuntos grandiloquentes, ou seja, mais um intelectual. E o que é um assunto grandiloquente? Assuntos grandiloquentes são aqueles que se escrevem com letras maiúsculas: o Futuro da Democracia; a Literatura Moderna Brasileira; o Fenômeno Lula; a História do Cristianismo Ocidental; Filosofia e Racionalismo; Conflitos entre Oriente e Ocidente etc. Tudo tão chato quanto pretensioso, convenhamos. São outros os assuntos verdadeiramente legais, que escrevemos com minúsculas mas que mereceriam maiúsculas: o Vestido Novo da Noiva; o Pato com Laranja do Freddy; Charutos; Licores, Vinhos e Vinhos de Sobremesa, o Sonho Erótico que Tive essa Noite etc.
Ah, sim. E o intelectual não fala bem de nada. Ele reclama. Rebaixa tudo que está a sua volta. Aponta na cara de cada um e diz como é baixo, como é fútil. Se fala bem de alguém, é para comparar com o resto e se lamentar "da atual situação das coisas". E então acender um cigarrinho.
Fico feliz que dê câncer.
***
Vou insistir ainda mais.
Intelectuais são muito chatos. Muito chatos. Minha vontade é bater neles, de óculos e tudo. Eu também dou minhas resmungadas e gosto de gente que fala de Literatura, ou que me recomende um bom livro, uma boa peça, um pintor que não conheço. Mas não faço do resmungar meu passatempo predileto. Meu novo lema desta semana é: Chega de lamentos, intelectual! Os escritores são ruins? Deixe que escrevam mal! Ignore! Graças a Gutenberg já se publicaram livros bons o suficiente para que possamos passar o resto da vida lendo, sem repetir uma só linha. Os outros são burros e você é assim tão inteligente? Não é possível que o nosso Albert Einstein de botequim não tenha encontrado umas duas ou três almas com quem possa trocar idéias. O Brasil está perdido, o mundo está afundando no materialismo-comunista, no moralismo-capitalista? Jura mesmo é? Primeiro, não acho. Para mim, você está querendo chamar a atenção. Toma um copo d'água, senta um pouquinho que isso vai passar. E segundo, mesmo se for verdade, não acredito que algo possa ser feito. Um homem contra a História é um lambari nadando contra o curso do rio. Tanto mais idiota quanto maior o esforço.
***
Criei meu mundinho particular, feito de pedacinhos que encontrei de um lado e de outro: vinho australiano, Oscar Wilde, charutos, Vermeer, Shaw, carros esporte e, no centro de tudo, minha noiva. Sou o que chamo de intelectoboy, ou playbectual. Um autista do bom gosto, um viciado em pequenos prazeres. Reúno o melhor de cada lado, e quando me refiro ao melhor, quero dizer o menos sério: Não levo dinheiro a sério, a ponto de passar a minha vida trancado em um escritório, mas também não levo a arte a sério, a ponto de virar mais um insuportável crítico. Compro livros e carros com o mesmo intuito: me divertir. Conduzo os dois sem pretensão de chegar a qualquer lugar. Quero só aproveitar o trajeto e no final encontrar lugares bonitos. Nesse sentido sou burro. Mas um burro feliz e, quero acreditar, um burro que sabe mais da vida do que a maioria.
- (Intelectual 1 dá um trago no cigarro) O pobre coitado não aproveita a vida.
- (Intelectual 2 com a latinha de cerveja na mão) Nunca leu um livro!
- (Intelectual 3 comendo um ovo roxo) Nunca foi ao teatro!
- (Intelectuais 1, 2, 3 e 4, em coro) É um burro! É um burro!!
No Brasil, intelectual não pode gostar de dinheiro. Mas vejam isso. Tenho a possibilidade de freqüentar os dois lados e garanto que nunca ouvi uma roda de yuppies parar para falar mal de intelectuais. Playboys não tomam conhecimento da intelectualidade. Entre uma e outra taça de vinho australiano, conversam sobre charutos, viagens, mulheres e futebol. Nem todos são estúpidos, garanto, e a maioria aparenta estar muito mais satisfeita com sua condição do que os intelectuais com a sua própria. Quando descobrem que um amigo entrou para um grupo de teatro, pedem notícias e se perguntam em silêncio como alguém pode viver sem a costeleta de vitela à milanesa do Fasano. Há um ar de condolências, mas não de raiva ou ressentimento. Já os intelectuais não. Estes vêm nos playboys uma ameaça à Paz Mundial e à Democracia. Eles têm raiva de playboys, falam mal, xingam, ridicularizam. Demonstram asco por dinheiro, nojo das futilidades e ficam fazendo planos sobre como transformar essas pessoas em algo que preste, como por exemplo um político ativo no parlamento, um bom escritor, um cientista, um padre.
Minha opinião? Pura inveja.
***
Mas o que seria uma pessoa que presta? É dessas que só falam de assuntos grandiloquentes, ou seja, mais um intelectual. E o que é um assunto grandiloquente? Assuntos grandiloquentes são aqueles que se escrevem com letras maiúsculas: o Futuro da Democracia; a Literatura Moderna Brasileira; o Fenômeno Lula; a História do Cristianismo Ocidental; Filosofia e Racionalismo; Conflitos entre Oriente e Ocidente etc. Tudo tão chato quanto pretensioso, convenhamos. São outros os assuntos verdadeiramente legais, que escrevemos com minúsculas mas que mereceriam maiúsculas: o Vestido Novo da Noiva; o Pato com Laranja do Freddy; Charutos; Licores, Vinhos e Vinhos de Sobremesa, o Sonho Erótico que Tive essa Noite etc.
Ah, sim. E o intelectual não fala bem de nada. Ele reclama. Rebaixa tudo que está a sua volta. Aponta na cara de cada um e diz como é baixo, como é fútil. Se fala bem de alguém, é para comparar com o resto e se lamentar "da atual situação das coisas". E então acender um cigarrinho.
Fico feliz que dê câncer.
***
Vou insistir ainda mais.
Intelectuais são muito chatos. Muito chatos. Minha vontade é bater neles, de óculos e tudo. Eu também dou minhas resmungadas e gosto de gente que fala de Literatura, ou que me recomende um bom livro, uma boa peça, um pintor que não conheço. Mas não faço do resmungar meu passatempo predileto. Meu novo lema desta semana é: Chega de lamentos, intelectual! Os escritores são ruins? Deixe que escrevam mal! Ignore! Graças a Gutenberg já se publicaram livros bons o suficiente para que possamos passar o resto da vida lendo, sem repetir uma só linha. Os outros são burros e você é assim tão inteligente? Não é possível que o nosso Albert Einstein de botequim não tenha encontrado umas duas ou três almas com quem possa trocar idéias. O Brasil está perdido, o mundo está afundando no materialismo-comunista, no moralismo-capitalista? Jura mesmo é? Primeiro, não acho. Para mim, você está querendo chamar a atenção. Toma um copo d'água, senta um pouquinho que isso vai passar. E segundo, mesmo se for verdade, não acredito que algo possa ser feito. Um homem contra a História é um lambari nadando contra o curso do rio. Tanto mais idiota quanto maior o esforço.
***
Criei meu mundinho particular, feito de pedacinhos que encontrei de um lado e de outro: vinho australiano, Oscar Wilde, charutos, Vermeer, Shaw, carros esporte e, no centro de tudo, minha noiva. Sou o que chamo de intelectoboy, ou playbectual. Um autista do bom gosto, um viciado em pequenos prazeres. Reúno o melhor de cada lado, e quando me refiro ao melhor, quero dizer o menos sério: Não levo dinheiro a sério, a ponto de passar a minha vida trancado em um escritório, mas também não levo a arte a sério, a ponto de virar mais um insuportável crítico. Compro livros e carros com o mesmo intuito: me divertir. Conduzo os dois sem pretensão de chegar a qualquer lugar. Quero só aproveitar o trajeto e no final encontrar lugares bonitos. Nesse sentido sou burro. Mas um burro feliz e, quero acreditar, um burro que sabe mais da vida do que a maioria.